FILE – arte centrada no usuário?

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Esta é a última semana do FILE, Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, realizado anualmente em São Paulo pelo SESI no prédio da FIESP, em plena Avenida Paulista. Após vários anos passando vontade, pude finalmente visitar o evento em sua décima edição.

Aliás, de cara uma contradição: o nome do festival está em português mas a pronúncia da sigla formada é em inglês (“fáili”), sendo que nesse idioma o festival se chama Electronic Language International Festival. Alguém tem uma hipótese?

Estrangeirismos à parte, o filé é saboroso: uma mostra que reúne instalações que exploram a fronteira entre a tecnologia e a arte com resultados surpreendentes, sensorialmente surpreendentes.

Mais do que uma abordagem intelectualizada, a maioria, se não a totalidade, das instalações do FILE busca proporcionar experiências sensoriais ao expectador. OK, a Arte em geral tem este objetivo mas o que despertou minha atenção foi a impressão de uma arte que busca mais que expectadores, uma arte centrada no usuário.

A proposta é de participar da instalação, experimentá-la – e experimentá-la com os sentidos, com sua história, com suas experiências passadas. É inevitável lembrar da infância, da arte de brincar sem precisar ler o manual, a arte de descobrir as regras pela experiência, pelo bom e velho método empírico das tentativas, erros e acertos. E aqui não vale ter medo de errar, afinal criança que é criança não deixa de fazer algo por medo da reprovação alheia, certo? Tudo guiado pelo prazer de tentar e experimentar.

Mas o que incrementa estas tentativas, indo além da experiência do usuário individual, é compartilhá-las coletivamente, em grupos de usuários diferentes que complementam suas observações e sensações, tornando a sua experiência muito mais rica e relevante. Tanto é verdade que, curiosamente, as instalações de uso mais individual acabam ficando de lado, com a maioria do público preferindo “brincar” coletivamente.

Arte centrada no usuário, enriquecida pela troca coletiva de experiências que se baseiam nas sensações e no histórico de cada pessoa… Isto lembra algo em especial? Para mim foi impossível não relacionar o FILE com o que se busca fazer na internet hoje – ou, pelo menos, com o que se deveria buscar.

Não são os usuários que precisam se adequar a um determinado site, mas o site que deve não só se adequar, como proporcionar experiências intuitivas, com múltiplas possibilidades de exploração e significação, além de estar aberto à partilha coletiva destas experiências, enriquecendo seu próprio conteúdo e, por que não, tornando-se um “lugar gostoso para brincar”.

E a “receita” realmente dá certo. Ou alguém já viu estudantes de graduação não desejarem sair de uma mostra de arte por estarem se divertindo muito com a experiência? Aliás, ir ao FILE com os alunos de graduação da ESAMC tornou a experiência ainda mais interessante. Obrigado, pessoal!

Comments

  • Dani Rubbo

    Poderíamos fazer uma análise semiótica do estrangeirismo, só para concluir que a multiplicidade de objetos possíveis enriquece o interpretante. Análises à parte, gosto mesmo é do Filé (era assim que eu dava o endereço do site pros alunos, em sala).
    E do file, vc pegou o Filé: o que nos vale é a experiência. Sempre múltipla, sempre única.

  • Sim, Dani. Com certeza foi muito bacana experimentar tudo isso de uma forma única – e múltipla. Obrigado pela oportunidade. E realmente não seria a mesma coisa sem o pessoal da ESAMC, foi o complemento perfeito, quase um “choque de gerações”, como vc diria.

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